quarta-feira, 16 de maio de 2012

VILMAR

Pequeno trecho do conto "Vilmar", considerado pelos leitores como o mais divertido conto, dentre as histórias que compõem o livro "Os Nomes na Máquina":

"[...] Minhas esperanças ruíram! A partir daquele momento só esperava encontrar maiores aborrecimentos. Estava profundamente envergonhado e arrependido por ter me dado ao trabalho de discutir e insistir veementemente com a Sirley sobre o meu embarque naquela porcaria de excursão. Sentia-me frustrado por ter perdido tempo e energia em prol de uma grande bobagem. 
Para piorar o meu apático estado de ânimo, outra vez o muambeiro – vulgo “Rei da Preguiça” – sentou-se ao meu lado. E como se aqueles poucos minutos que passáramos lado a lado, dentro do mais absoluto silêncio, tivessem de alguma maneira estabelecido entre nós algum grau de intimidade, sentindo-se no direito de me aborrecer, e abandonando os preceitos da boa educação, o sujeito perguntou:
“De onde você é?”
“Sou de um município qualquer...”, respondi rispidamente.
Quando as circunstâncias exigem de mim uma resposta imediata e enérgica, sou capaz de me transformar na grosseria em pessoa. De nenhuma maneira eu poderia dar a entender que estava minimamente interessado em conversar. Estava certo, e poderia até mesmo apostar, que a menor liberdade concedida ao Rei da Preguiça seria o bastante para que, em menos de cinco minutos, ele estivesse perguntando a cor da minha cueca e se o meu intestino era pontual como um relógio suíço. 
Aliás, convenhamos: conversar com o indivíduo era a única coisa que me faltava acontecer para completar as piores férias da minha vida. Quase todos os acontecimentos têm o dom de me chatear. Sobretudo acontecimentos tão idiotas quanto os que movimentavam (ou embalavam tediosamente entoando cantigas de ninar) aquela excursão ridícula. Era preferível passar por mal-educado a ser obrigado a ceder os ouvidos aos desvarios de um desocupado por vocação e escolha. 
Contudo, e infelizmente, o muambeiro não percebeu a descortês intenção da minha resposta. O imbecil chegou ao cúmulo de gostar das minhas palavras. Meneou a cabeça em sinal de aprovação e abriu o mesmo sorriso que exibia aos incautos turistas para os quais vendia as suas miúdas inutilidades. 
Acho que o Rei da Preguiça pensou que eu estava tentando expressar algum tipo de convicção ou filosofia pessoal. O duro é que agora ele certamente não largaria do meu pé.
“Concordo com você! Também não acredito em imaginárias fronteiras geográficas. Separar as pessoas cerceando-as em cidades, estados, países... O que importa você ter nascido neste ou naquele lugar? Que diferença faz nascer nesta ou naquela região? Somos todos do planeta Terra! Somos humanos! Somos todos irmãos!”
O sujeito disse as suas frases como se ele fosse o mais tranquilo e sábio mortal. Naquele mesmo instante eu tive a certeza de que jamais ouvira tanta baboseira de uma única vez. Geralmente os indivíduos guardam a sete chaves as ideias absurdas que por acaso e ébria inspiração lhes ocorrem. Quando muito, num momento de deslize, servem esporadicamente aos demais pequenas doses de suas sandices. Depois, porém, ao despertarem para a realidade, as pessoas sempre se sentem profundamente envergonhadas. 
Ah!, mas o muambeiro não se importava de despejar de uma única vez todo o conteúdo de seu vasilhame apodrecido! Ele não sentia constrangimento pela péssima qualidade do seu líquido turvo! O Rei da Preguiça certamente acreditava em tudo o que dissera! 
É óbvio que todos nós somos seres humanos. Se bem que ultimamente venho desconfiando de que certos sujeitos são menos seres humanos do que os demais. De qualquer maneira, as pessoas devem preservar a sua nacionalidade (cantar o hino, jurar à bandeira, depositar seu voto nas urnas, pagar impostos...). As pessoas devem preservar as fronteiras. Caso contrário, como seria possível estabelecer governantes e governados? 
Só que eu não estava com vontade ou disposição para debater o assunto. Debater qualquer que seja o assunto parece-me uma grande perda de tempo. Sobretudo debater com um sujeito que só anda por aí com suas ridículas bermudas e chinelas, que nunca corta os cabelos e talvez nem os lave, que vive de produzir e vender miudezas e pegar carona com o primeiro ônibus de turistas que cruze os seus caminhos redundantes. 
Eu estava ciente de que nenhuma ideia perspicaz se manifestaria entoada pela voz macia e enervante e moldada pela boca cheia de dentes amarelados do Rei da Preguiça. Suas frases apenas comprovariam a minha impressão inicial. Seria verdadeiramente enfadonho corroborar algo tão fácil de entrever: a minúscula e primitiva inteligência do muambeiro.
“Ah!, é?”, respondi." [Continua]

Desenho assinado pela artista plástica Elizabeth Finholdt. Acompanha tanto o e-book quanto a versão impressa.

O livro "Os Nomes na Máquina" poderá ser adquirido no formato e-book ou impresso através do PagSeguro. O e-book custa R$ 14,50 e o PDF será enviado ao e-mail do leitor imediatamente após a confirmação de pagamento. O livro físico custa R$ 30,00 (já incluído o valor do frete via remessa registrada dos Correios) e contém belíssima capa ilustrada pela mesma artista que criou o desenho acima.

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ANÔNIMO I

Segue abaixo trecho do conto "Anônimo I", considerado por muitos leitores, bem como críticos de literatura, como um dos melhores, dentre as histórias que constituem o livro "Os Nomes na Máquina":

"[...] Todos os dias, alguns minutos antes das dezessete horas, Juliana e Amaranta vestem a melhor combinação de seus guarda-roupas, calçam as sandálias com maior salto, despejam meio vidro dos mais caros perfumes no corpo, usam tanta maquilagem quanto Pernilongo – o palhaço do pequeno circo municipal – e depois vêm se sentar num banco da praça a fim de aguardarem a passagem de um sujeito chamado Silvio. 
Trata-se do horário em que rotineiramente Silvio apanha o ônibus escolar. E por mais atrasado que o motorista esteja, indiferentes quanto às reclamações dos outros passageiros, Juliana e Amaranta não liberam o Silvio antes de baterem com ele um papinho permeado por risinhos forçados. 
Talvez devido ao fato de o Silvio se portar como se fosse um célebre galã – aqueles sujeitos pasmados dos filmes românticos-água-com-açúcar –, quase todas as jovens da cidade sentem atração por ele. 
No entanto, contrariando a imagem que tem de si, o Silvio é deveras mal-acabado. Não por enxergar através daqueles olhos que parecem querer fugir da órbita (eu também quereria fugir se o destino resolvesse me transformar nos olhos de um sujeito tão insuportável), não por seu nariz de bom-moço se assemelhar a uma batata colhida em pleno campo de testes de bombas nucleares, ou mesmo por seu andar remeter a um hamster sapateador que acabara de receber do veterinário a terrível notícia sobre o seu inevitável afastamento dos palcos engaiolados devido a um reumatismo galopante. 
O Silvio torna-se feio por se considerar o mais charmoso dentre os mortais. Mas esse lapso de medida não é de sua inteira e exclusiva responsabilidade. Pode-se atribuir parte da culpa a certas “menininhas”, como a Juliana e a Amaranta, que não perdem uma só oportunidade de inflar um ego já aprioristicamente pretensioso. 
Gostaria de descobrir o motivo que leva as garotas a suspirarem pelo Silvio. Beleza nós chegamos à conclusão de que nada tem a ver com o citado evento. Talvez o Silvio seja articulador de um papo de primeira, mas seria impossível checar a verossimilhança de tal hipótese. O indivíduo vive cercado de companhia feminina. Só cumprimenta a distância através de um reles aceno de mãos – sorriso cheio de dentes estampado na carona de boa pinta. 
O pior é que a propagada fama de galã se espalha como fumaça de narguilé. Ilude e fascina até mesmo moças espertas como a Patrícia. Ao notar o interesse de uma garota tão especial, e por ser pedante, mas não idiota, o Silvio não perderia a chance de tirar da cartola todo o seu cínico acervo de frases feitas e lugares-comuns. 
Eu fico chateado como um elefante de ressaca. A Patrícia é muito legal! Ela tem os cabelos lisos, negros como os olhos. O traçado de seus discretos lábios está em perfeita harmonia com a pele clara. Costuma caminhar pela praça como se fosse um anjo a flutuar sobre nuvens. Assim que me vê abre o franco e delicado sorriso e diz “oi” com a mais suave voz que se poderia ouvir. 
Por mais que eu passe as noites em claro a dar vazão a infinitas conjecturas, não consigo entender os motivos que levam a Patrícia a se interessar pelo Silvio. O que os dois podem ter em comum? Todas as vezes que eles se encontram, porém, a Patrícia começa a suspirar e ajeitar as mechas que o vento soprara. Depois eles ficam conversando horas a fio, como se o mundo ao redor fosse o mais ínfimo dos detalhes. 
Sei lá! Talvez  Patrícia e o Silvio até já estejam namorando! Poucas coisas são capazes de me aborrecer. Entretanto, em primeiro lugar desta resumida lista, encontrasse o infeliz acaso de a Patrícia ser tão perfeita e ao mesmo tempo deixar-se envolver por um sujeito que não acredita em vida além do próprio umbigo." [continua]

Desenho assinado pela artista plástica Elizabeth Finholdt. Acompanha tanto o e-book quanto a versão impressa.

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MARCELO

Abaixo pequeno trecho para apreciação do conto "Marcelo", uma das excelentes histórias que compõem o livro "Os Nomes na Máquina":

"O vizinho cerrando com força a janela que dá para a rua, carro que passa veloz durante a madrugada, dia que sucede noite e sucede o dia, planeta girando ininterruptamente; tudo, enfim, parecia pulsar no mesmo ritmo. Marcelo, por outro lado, sentia como se ele fosse a indiscreta exceção.
Havia momentos em que Marcelo conseguia acompanhar a velocidade dos acontecimentos. Raros e breves momentos em que ele se comprazia com a amena sensação de integração. Mas logo advinha o descompasso. Ou Marcelo acelerava e o mundo ao redor insistia na lentidão, ou as coisas se passavam tão rapidamente que as pernas de Marcelo perdiam as forças e o obrigavam a estacionar no tempo crasso.
Marcelo divagava com incrível facilidade e nem sequer percebia que o seu distrair era proposital. Os eventos essencialmente simples chamavam a sua atenção de uma maneira irresistível. Ele não poderia mesmo se culpar pelo fato de uma ínfima gota-d’água de repente lhe parecer ilimitado universo.
Foi exatamente o que aconteceu no dia em que Marcelo quebrara o braço. Sua mãe regava o jardim e o efeito dos raios solares incidindo diretamente sobre as gotas que caíam – o reflexo multicolorido como um espelho de forma indefinida a se expandir e retrair sobre a grama do jardim – era tão simples, belo, perfeito, que Marcelo não pôde deixar de observar e se distrair.
Ele estava sentado num balanço e seu primo o embalava. Esqueceu de se agarrar nas correntes e caiu alguns metros adiante com o forte empurrão que o primo deu em suas costas.
Certa vez, sentado no banco de uma lanchonete, comendo sanduíches e tomando refrigerantes em companhia de Pablo, o irmão mais velho, Marcelo acabou sendo obrigado a ouvir outro dos inúmeros sermões que marcaram a sua infância. Pois as distrações de Marcelo não dependiam exclusivamente de uma junção de vários elementos a constituírem perfeito contexto. Determinado detalhe, a completar o que fosse, bastava para chamar a sua atenção e distrai-lo irremediavelmente. Tal como a mancha de dois centímetros na meia-calça da loira sentada a poucos passos dos dois irmãos.
Marcelo fixou-se na mancha e sua abstração foi tão profunda que ele não pôde notar o desconforto da moça. A todo o momento ela mudava sua posição na cadeira e tentava cobrir a mancha com a minissaia. Sua insatisfação com o fixo olhar de Marcelo por fim a moveu até a mesa dos irmãos.
A proximidade da loira revelou a Marcelo que a bela estrela avermelhada, a brilhar num firmamento bronzeado, na verdade, não passava de um vexatório borrão de catchup. Então ele voltou à realidade a tempo de ouvir a moça dizer:
“Vocês não têm vergonha de ficar encarando os outros?”
Pablo, o irmão mais velho, era um sujeito tranquilo. No entanto sentiu-se tão envergonhado que aplicou dois beliscões em Marcelo e desistiu de tomar o lanche. Alguns meses se passaram antes que ele aceitasse sair outras vezes em companhia do seu irmão.
Embora Marcelo nunca tenha almejado notoriedade, os seus acidentes o tornaram popular, sobretudo na rigorosa escola que ele frequentava. Marcelo preferiria mil vezes a incógnita. Era melhor até mesmo viver sozinho a ser obrigado a mostrar amarelo sorriso todas as vezes que alguém fazia alguma piada ou inventava novo apelido sobre a sua pessoa. Ele sabia que era inútil retrucar ou responder com violência, mas não achava nada engraçado quando os colegas o chamavam de zumbi.
Aliás, poucas coisas tinham o dom de divertir Marcelo. Sua maior demonstração de contentamento era o discreto sorriso que raríssimas situações o levavam a exibir. Marcelo jamais gargalhava como a garota que certo dia ele avistou no refeitório da escola.
Camila tinha dezessete anos e a risada mais incomum que Marcelo já ouvira. Era a primeira vez que alguém lhe proporcionava algo além de alguns instantes de distração. Marcelo quis saber tudo sobre a pessoa que o apresentava a tantos sentimentos paradoxais. No dia em que viu Camila pela primeira vez, porém, ele só conseguiu se distrair com os seus traços, e lutar contra a voz que insistia numa imediata aproximação.
Poucos dias depois de sua transferência de uma escola da capital, Camila já se tornara o centro dos comentários entre os estudantes do sexo masculino. Ela era bonita, olhos castanhos, cabelos lisos batendo nos ombros, corpo perfeito que todos desejavam nem que fosse por uma única noite." [Continua]

Desenho assinado pela artista plástica Elizabeth Finholdt. Acompanha tanto o e-book quanto a versão impressa.

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PESSOA

"Pessoa" é o primeiro dos contos que compõem o livro "Os Nomes na Máquina". Foi descrito pela jornalista Luciana Murta como um dos textos de maior sensibilidade com o qual ela já se deparou. Segue abaixo pequeno trecho para apreciação:

"Ninguém descreveria os meus dias com os adjetivos: agitados, surpreendentes, empolgantes... Moro numa pequena cidade litorânea cuja principal vocação é se esconder do mundo ao largo. Todas as praias do município são desertas. O oceano mantém-se quase sempre calmo, tom esverdeado, ondas de macia espuma que não ultrapassam a altura dos joelhos.
Caso o leitor pretenda passar as férias em ambiente cheio de possibilidades, aconselho a não vir pra cá. Às vezes penso naquelas cidades cujas festas típicas rendem vários meses de trabalho, que os habitantes executam com largos sorrisos nos lábios. Refiro-me àqueles eventos que de vez em quando são reportados em revistas ou programas jornalísticos da TV, tais como o “Festival Anual dos Tomates”, o “Concurso da Princesa do Milho”, ou a “Festa da Cerveja”.
Nenhuma dessas festas é realizada na cidade onde eu vivo. Aqui se comemora muito timidamente apenas o que todo o mundo costuma celebrar por hábito. Desconfio até que raros habitantes locais se emocionam com datas como a Páscoa ou o Dia dos Pais. Quando muito, trocam cumprimentos como se entregassem boletos bancários para a caixa da agência registrar o pagamento.
Essa apática característica, porém, não é motivo para que eu me sinta chateado. Certos eventos organizados entre conterrâneos parecem-me meio sem sentido. Alguns beiram o ridículo. Por exemplo: qual a graça de se passar horas a fio atirando tomates uns nos outros? Ou então qual a graça de se enfurecer touros para que depois se possa fugir deles como um desesperado pelas ruas da cidade? E que graça poderia haver em beber litros e litros de cerveja usando exóticos copos? Para ser completamente sincero, não acho a menor graça, e prefiro o marasmo que caracteriza este município.
As ruas são todas revestidas com certo mineral escuro e pesado. Os raros carros que circulam por estas vias enfrentam grande trepidação. Devido ao vento constante de cheiro que os visitantes costumam descrever como nauseabundo – e que passa despercebido pelos nativos –, as pedras do calçamento são cobertas por fina camada de areia, o que as torna extremamente escorregadias.
Fui testemunha de inúmeros tombos. Posso corroborar a teoria de que nenhum elemento no mundo, por maiores semelhanças que se possa perceber, é igual a outro. Dois acontecimentos, mesmo que aparentemente tenham seguido idêntico encadeamento, jamais poderiam ser considerados exatamente iguais. Posso corroborar tal hipótese tecendo analogias a partir dos sempre singulares tombos de que fui testemunha. Todos os tipos de escorregões e tropeções e estropiar de pés, joelhos, cotovelos. Detalhes inusitados e às vezes próximos, mas nunca iguais, embora invariavelmente vexatórios.
Tais acidentes, e a vergonha subsequente, acabam encerrando pelos dias seguintes os moradores dentro de suas modestas casas. Encerram até mesmo os habitantes mais abastados, cujas residências, porém, só se diferenciam das primeiras no que se refere à maior extensão.
Acontece que ninguém se preocupa com o aspecto da fachada das construções locais, pois não há tinta que resista à imbatível maresia. Logo, todas as casas parecem ter sido pintadas com o mesmo matiz – algo entre o cinza e o preto que, aliado ao inalterável silêncio a imperar sobre o município, alimenta a sensação de que os habitantes preservam intrínseca convivência com a saudade.
Alguns leitores podem até achar a afirmação a seguir verdadeiramente absurda. Todavia, embora contrariar não seja o meu objetivo, e eu preferisse conquistar simpatia ao invés de incredulidade, não seria justo omitir importantes características locais ou narrá-las com desonestidade. Valorizo a sinceridade – apesar de considerar a compreensão como o top dentre as virtudes –, e vejo-me obrigado a dizer que nem mesmo igreja há nesta cidade para que os meus conterrâneos possam dar vazão comunitária aos seus individuais arroubos de fé.
Certa vez o ministro de um culto qualquer estabeleceu uma célula de sua organização em nosso município. Os habitantes acolheram o templo com grande entusiasmo. Não que eles desejassem desde o nascimento ingressar nalguma instituição religiosa, mas devido à sua gritante necessidade de participar de novos acontecimentos.
Poucos meses depois, porém, o pastor da congregação desapareceu. Não poderia ter partido de maneira mais discreta: sumiu do mapa durante a inóspita madrugada. Dois anos se passaram antes que descobríssemos a causa do repentino desaparecimento. Soubemos que o pastor estava foragido. A polícia o procurava a fim de que ele respondesse a um processo por suspeita de usar a fé das pessoas a fim de enriquecer.
Se existe algo que eu não consigo entender é o fanatismo das pessoas por dinheiro. Por que todo o mundo que conheço dá tanto valor a punhados de papel? Obviamente o dinheiro proporciona ou deveria proporcionar a nossa sobrevivência, no entanto, só porque em dado momento, achamos por bem adotá-lo como meio.
Excetuando simples e pouco numerosos adventos físicos inerentes aos seres vivos, somos nós que originamos e instituímos necessidades de acordo com os subjetivos caminhos que se escolhe na busca pela felicidade. Inventamos os meios de satisfazê-las, portanto, podemos descartá-los a qualquer momento (ou pelo menos mudar a maneira como nos relacionamos com eles e o valor que lhes atribuímos). Sobretudo quando necessidades e meios de satisfazê-las se tornam irremediavelmente prejudiciais.
Acredito firmemente que o veículo não deveria ser tomado como fim. O condutor, a estrada, a paisagem, o ponto de partida, o destino..., enfim, é que são insubstituíveis. Sei lá! É que às vezes tenho a nítida sensação de que atualmente se dá maior valor a punhados de papel do que aos próprios seres humanos. Tal impressão me perturba e entristece, principalmente todos os dias após o retorno do meu irmão de seu trabalho no porto.
Desde que os nossos pais faleceram, surpreendidos em alto mar com seu barco modesto por violenta tempestade, Afonso, o irmão mais velho, assumiu as despesas da casa. Ele considera tal incumbência como sua obrigação e a desempenha com competência. O problema é que muitas vezes confunde os papéis e age como se realmente fosse o nosso pai.
Afonso é carregador de mercadorias em navios cargueiros no porto de uma cidade vizinha. Todos os dias ele desperta às quatro horas da manhã, engole o café em menos de cinco minutos, caminha dois quilômetros até alcançar a plataforma onde apanha a balsa, chega ao serviço e, por fim, passa o dia suportando o peso das caixas de mercadorias sobre os ombros a resfolegar de raiva perante as broncas do patrão.
O Afonso “engole” todas as queixas e depois as transmuta, canaliza e despeja contra o principal alvo que ele elegera para a sua desforra: o irmão imediatamente mais novo, ou seja, a pessoa que vos escreve estas linhas.
Logo que começaram as discussões iniciadas pelos reclames do Afonso, eu ficava muito nervoso e dizia inúmeros palavrões; insultos que certamente provocavam magoadas cicatrizes, inclusive aquelas que teimavam em crescer dentro da minha própria alma, delegar-me arrependimento e culpa; enfim, palavras cujo pronunciar jamais me deixariam orgulhoso, mas que eu não era suficientemente constante ou forte para impedi-lo.
Com o passar do tempo e reiteradas circunstâncias, porém, sobretudo após o dia em que escutei incomum ruído se dispersar pela casa a partir do quarto do Afonso, a paciência se tornou uma das virtudes que eu mais admiro.
Havíamos discutido por causa de uma futilidade qualquer. Resolvi dar um passeio na praia a fim de apaziguar os pensamentos e só voltei bem tarde. Foi quando ouvi o tal ruído. Aproximei-me vagarosamente e pude notar que o Afonso esquecera a porta do quarto semicerrada. Pela fresta de mais ou menos dez centímetros pude ver o meu irmão sentado na beira da cama a chorar com surpreendente amargura." [continua]

Desenho assinado pela artista plástica Elizabeth Finholdt. Presente tanto na versão e-book quanto nos exemplares físicos.

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